A editora da UFPR (Universidade Federal do Paraná) lançou o livro Velhos Vermelhos — História e Memória dos Dirigentes Comunistas no Paraná, organizado por Adriano Codato e Marcio Kieller. Além de dois ensaios históricos e uma introdução metodológica, o livro traz o depoimento de dez militantes do Partido Comunista no Paraná nos anos 1950 e 1960.
Capa de "Velhos Vermelhos"

Leia, abaixo, o prefácio da obra escrito por João Quartim de Moraes,professor titular de Filosofia Política da Universidade Estadual de Campinas.

A despeito de faltar um estudo pormenorizado, sistematizado e abrangente da bibliografia sobre o comunismo no Brasil (o mais completo que conhecemos está em The Brazilian Communist Party, de Ronald Chicote, que data de 1974), não é arriscado dizer que suas dimensões são bastante razoáveis. Se nela incluirmos, além de livros e artigos, as muitas teses defendidas pelo Brasil afora, chegaremos a um acervo considerável, mesmo se adotarmos um critério estrito de classificação, considerando tão somente as obras consagradas exclusiva ou principalmente ao tema.

Boa parte dessa bibliografia compõe-se de escritos produzidos pelos próprios comunistas. Nenhum outro movimento político confere maior importância aos fundamentos teóricos de sua ação. Já em agosto de 1924, pouco mais de dois anos depois da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), Octávio Brandão, escondendo-se da polícia de Artur Bernardes, havia composto o essencial de Agrarismo e industrialismo, primeira tentativa de explicação marxista da sociedade brasileira. O texto circulou em cópias datilografadas, servindo de subsídio para as teses que Astrojildo Pereira apresentou no II Congresso do PCB (maio de 1925). Em décadas posteriores, ampliando e aprofundando essa iniciativa pioneira, intelectuais comunistas de reconhecida estatura desenvolveram interpretações marxistas da evolução econômica e política brasileira que constituem marcos teóricos decisivos para a compreensão de nossa história.

Compreensivelmente, entretanto, tiveram maior impacto no grande público as obras biográficas e os relatos das muitas lutas que os comunistas travaram e dos trágicos episódios de que foram protagonistas. Décadas de perseguição policial (no mais das vezes acompanhadas das mais torpes e odiosas atrocidades) e de contínua intoxicação mental (há sempre um sicofanta de plantão para tripudiar, por exemplo, a respeito do que a direita chama a “Intentona” de 1935, repetindo mentiras grosseiras a respeito desse trágico episódio), não lograram turvar a imagem de abnegação e heroísmo associada à trajetória do PCB nos períodos mais sombrios de nossa história. Com o fim do “sufoco” ditatorial, eclodiu vasta produção literária, consagrada principalmente à luta contra a ditadura militar, mas evocando também combates de outras gerações: a vida curta, bela e trágica de Olga Benário inspirou um livro e depois um filme de muito sucesso. Até a muito manipulada televisão apresentou vários programas sobre a vida e as lutas de Luís Carlos Prestes.

Velhos Vermelhos inscreve-se nessa longa, vasta e multiforme produção cultural apresentando dez entrevistas consagradas à história e à memória dos dirigentes comunistas no Paraná entre 1945 e 1964, conforme esclarece o subtítulo do livro. É de se esperar, dos depoimentos de participantes e protagonistas de um longo combate revolucionário, narrativas penetrantes e comentários esclarecedores. Essa expectativa é largamente satisfeita, mas o livro oferece mais. Os entrevistados são convidados a responder a um bloco de questões, das quais as básicas são retomadas em cada entrevista. Outras variam em função das características da trajetória política de cada qual. O recurso ao questionário, indispensável para aferir com objetividade os traços comuns e as singularidades diferenciais que caracterizam a experiência da militância, é feito com inteligência não somente na escolha e formulação das questões, mas também na liberdade deixada aos entrevistados de desenvolver espontaneamente as respostas. O resultado, enfatizado pelos títulos de capítulos que os editores colocaram no topo de cada entrevista, destacando-lhe pontos fortes, aspectos originais, episódios marcantes, é um documento histórico de qualidade que oferece retratos sem retoques do que significou ser comunista durante o regime instaurado pelo golpe militar que depôs Getúlio Vargas em 1945 e derrubado pela contra-revolução de 1964.

As entrevistas têm por cenário o Paraná, mas cumprem, em suas circunstâncias de tempo e lugar, o estupendo preceito dialético que Tolstoi formulou em seu próprio século e em sua Rússia natal: “se queres ser universal, pinta tua aldeia”. As idéias gerais, em si mesmas, são vazias de conteúdo. Não são, pois, efetivamente universais. É indo ao fundo das próprias circunstâncias, embrenhando-se na espessa trama dos fatos, que podemos conferir uma dimensão universal ao aqui e agora. Tomemos o exemplo da corrupção, sempre atual entre nós. Enquanto idéia geral, ela é muito utilizada pela retórica moralista, que divide os cidadãos em honestos e corruptos, sem analisar as condições sociais que geram a imoralidade pública. Ater-se a essa generalidade, porém, banaliza a questão: são tantos os corruptos! Não é essa a atitude dos velhos vermelhos. Um deles mostra como se concretizou a abominável trapaça por meio da qual o então governador Moyses Lupion, por meio de uma fictícia “dação em pagamento”, fez passar para o nome de uma empresa de fachada da qual ele e um comparsa, um certo José Houp, eram sócios, as chamadas glebas do rio Piquiri, propriedade do estado do Paraná. Essas glebas eram, porém, habitadas e cultivadas há muito tempo por posseiros, que já se haviam mobilizado para obter sua titulação. Lupion fez como se eles não existissem. Criou um cartório a seu serviço e começou a vender títulos de participação. Quando os incautos compradores perceberam que o peculiar empreendimento só existia no papel, foram aconselhados a ressarcir-se “revendendo” aos posseiros as terras que esses, a justo título, consideravam suas... Alguns aceitaram pagar pelo que já era deles; outros resistiram e foram cruelmente atacados pelos jagunços a soldo de Lupion. Na defesa dos camponeses esbulhados, o PCB paranaense honrou seu compromisso com a causa do povo.

A importância decisiva que o movimento comunista, em escala internacional, sempre conferiu à função de organizador coletivo exercida pela imprensa partidária inspira-se no célebre Que fazer? de Lênin. Não se pode levar a sério um partido que pretenda mudar o mundo sem sequer dispor de meios próprios de propaganda (legais ou clandestinos). Formados na escola revolucionária do leninismo, praticamente todos os entrevistados enfatizaram o esforço para manter presente e atuante a palavra do Partido, através das dificuldades materiais (não por acaso o tema principal de uma das entrevistas é o mito do “ouro de Moscou”) e da constante perseguição policial.

Vale enfatizar, enfim, que Velhos Vermelhos oferece, num texto ágil, muito bem editado, que mantém aceso o interesse da leitura, não somente importantes subsídios para a história das lutas sociais e do combate revolucionário no Paraná, mas principalmente, um auto-retrato verídico da militância comunista na singularidade de suas circunstâncias concretas e na universalidade de seu projeto político.

Reproduzido do Portal Vermelho

Por Pietro Alarcón*

Violência, narcotráfico, seqüestros, refugiados, paramilitares, guerrilheiros, tréguas e tentativas frustradas de estabelecer um mínimo de condições para o exercício do legítimo direito à oposição, fazem parte freqüente do quadro de vocábulos que descrevem a tragédia da Colômbia pelo menos nos últimos 50 anos.

Contudo, a imensa maioria dos colombianos ainda não cessou de tentar empreender o caminho da reconciliação, da superação das dificuldades e do risco da banalidade que ocasiona a exposição quase cotidiana do horror da violência.

Nesse quadro, esquivar a morte e comprometer-se com uma alternativa à guerra é o caminho que trilha um setor de colombianos identificados como ‘Colombianos e Colombianas por la Paz’, que reagem diante do discurso de saídas militares que o país já não agüenta mais e que promove o Executivo que encabeça o presidente Uribe.

Essa iniciativa não tem apenas uma repercussão interna senão uma dimensão internacional inegável, posto que a paz não é apenas uma necessidade e um direito legítimo dos colombianos. É uma exigência humana, um dever humanitário, que beneficiaria direta e especialmente aos povos da América Latina, porque indiscutivelmente geraria um novo clima na região, de maior estabilidade nas relações político-diplomáticas, econômicas, sociais e culturais e seria altamente positivo para dar início a uma etapa diferente na integração dos povos, com fundamento na construção de um Estado de Direito de democracia avançada, participativa e ligado à satisfação das necessidades públicas.

De maneira que as ações empreendidas para criar cenários de paz devem ser saudadas, apoiadas e estimuladas. E é bem por isso que a iniciativa desse movimento, que explorou o caminho de epistolarmente dirigir-se abertamente à guerrilha, processo que finalmente deu lugar à liberação de seis seqüestrados pelas Farc, tem um apoio internacional ao qual se somam organizações como a Cruz Vermelha e todos os que compreendem que o respeito pelos direitos humanos começa pelo diálogo e a negociação política na perspectiva de impor a razão e rejeitar as soluções de força.

No entanto, os fatos e as manifestações governamentais – e podemos exemplificar como nesta oportunidade houve um torpe sobrevôo militar que, de boa fé, segundo a versão do governo colombiano, atrapalhou a entrega de um dos reféns, violando-se a linha de trabalho que tinha sido acordada com o Exército brasileiro, bem como a hostilidade e as constantes afirmações do Executivo colombiano de que os membros desse movimento, dentre os quais se encontram intelectuais, acadêmicos e personalidades da cultura consagradas dentro e fora do país, tem como intenção real abrir espaços políticos à guerrilha – podem se converter em elementos que em lugar de abrir, fechem as possibilidades de um processo humanitário que poderia ter como desenlace novas libertações. Tais elementos e, particularmente, as afirmações do Executivo, são além de constrangedoras, evidentemente ameaçadoras para as pessoas que conformam o cenário dos que desejam a paz, e ainda constituem um desserviço à conquista da recuperação do direito à liberdade humana.

Em um país sem paz e sem direitos, com uma gravíssima crise humanitária, acompanhar os fios da história é um exercício político e jurídico obrigatório. A violência persiste, entre outros fatores, porque o paramilitarismo - que nunca deixou de existir, como afirmam as entidades de defesa dos direitos humanos apesar das posições institucionais - continua a ameaçar a vida de sindicalistas e defensores das liberdades públicas e os direitos cidadãos. Segundo as cifras apresentadas por ONGs como a Escola Nacional Sindical, já são mais de 400 sindicalistas assassinados durante o presente governo.

Causa realmente consternação o informe da Human Rights Watch de janeiro do presente ano, no qual se afirma que os grupos paramilitares não somente são responsáveis de incontáveis crimes de lesa humanidade, senão que ainda acumularam um patrimônio considerável através de alianças mafiosas com membros das forças militares, empresários e membros efetivos de partidos políticos tradicionais em localidades colombianas.

Trata-se de um escândalo conhecido nacional e internacionalmente. O governo, segundo a Human Rights Watch, argumenta que não já não existem paramilitares, mas, ainda que seja reconhecido que mais de 30.000 pessoas ingressaram em um processo de abandono das armas, sérios e objetivos pesquisadores do conflito social colombiano comprovaram que muitos deles não eram paramilitares senão civis recrutados para a finalidade de se fazer passar por membros desses grupos. As autoridades não julgaram estas pessoas e, por enquanto, surgem novos grupos armados que atuam sob a orientação de novos mandos. Esclarece o informe que a Missão de Apoio ao Processo de

Paz da OEA (APP/OEA), a cargo de verificar as condições políticas e jurídicas da desmobilização, já tem uma lista de 22 grupos ilegais com essas características.

Muito embora na Corte Constitucional, em maio de 2008, instou-se o Executivo a uma revisão exaustiva do programa de proteção a jornalistas e sindicalistas e do programa de proteção e vítimas do paramilitarismo, pouco tem sido feito nesse sentido, enquanto as declarações de funcionários governamentais e do próprio senhor presidente intimidam os defensores de direitos humanos com discursos onde se ameaça nas entrelinhas, obstaculizando-se assim o legítimo trabalho de amparo e proteção das vítimas de gravíssimas violações do direito à vida.

Entretanto, o que talvez ocasione maior indignação é o doloroso drama do refúgio; a infinita cadeia de famílias que abandonam seus lares, seus bens, a região em que procuravam honradamente seu sustento, pela crueldade do conflito interno.

A geografia colombiana já registra mais de 4 milhões de refugiados internos, em ameaça constante. Um êxodo que faz tempo deixou de ser silencioso e virou algo massivo; um fenômeno que destrói famílias, que fomenta a imigração urbana ocasionando desequilíbrios na conformação do tecido social e que tem fortíssimo impacto na economia.

Vale a pena anotar que 75% dos refugiados internos são mulheres e que 18% delas foram, em alguma medida, vítimas de violações e abusos sexuais em regiões distantes e conflituosas, o que levou a que uma decisão da Corte Constitucional no ano de 2006 (T-919/2006) determinasse que mulheres e crianças deveriam ter atendimento diferenciado e prioritário como grupos mais vulneráveis dentro do vasto grupo dos refugiados internos.

Apenas no ano passado o governo adotou as primeiras medidas, ainda que precárias, para essa proteção. Aliás, dois anos atrás, a Corte já havia reconhecido a extrema vulnerabilidade dos refugiados internos e a precariedade dos atendimentos e, em geral, da atenção estatal (T-025/04)

Nessa coleção de fatos em que a dignidade humana, a vida, a liberdade, os direitos sociais e políticos se esvaziam, não há como não festejar o protagônico papel dos colombianos que tentam viabilizar a paz com ações claras e acompanhamento internacional, ainda que sob a tensão que significa o estigma oficial.

Uma questão é clara: o drama dos refugiados internos e dos requerentes colombianos de asilo em territórios vizinhos, como no Brasil, somente terá condições de diminuir ou definitivamente acabar na exata medida em que existam esforços para o respeito às normas do Direito Internacional que coíbem e penalizam o tratamento desumano contra a população civil ou que exista uma abertura às condições para gerar a paz democrática no país. E nesse sentido, o esforço de setores sociais, como o dos Colombianos e Colombianas por la Paz, é uma iniciativa justa, que merece o respaldo internacional tanto pela recriação da tolerância como princípio fundamental na reconstrução do tecido social colombiano, como pela efetividade que teve seu primeiro grande desafio: a libertação dos seis reféns.

*Pietro Alarcón é professor da PUC/SP, assessor do convênio Cáritas-ACNUR para refugiados e membro da CEBRAPAZ.
Artigo reproduzido do Correio da Cidadania

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Governo apresenta proposta de Reforma Política

O Governo Federal apresentou uma proposta de reforma política. Logo depois das eleições para a direção do Senado e da Câmara de Deputados, ambas casas legislativas sob o comando do PMDB. Trata-se de uma iniciativa do Executivo. A proposta apresenta avanços como o financiamento público de campanha, lista fechada e medidas de contenção do troca-troca partidário. Peca pela proibição das coligações, instrumento necessário para a fluidez do processo político.

Como o assunto é recorrente, e há todo um setor do mundo político avesso a qualquer mudança, vamos aguardar os próximos passos da matéria. De todo modo, a reforma política mais do que necessária é um imperativo para eliminar o controle das máquinas oligarquicas e das elites econômicas sobre as eleições, abrindo a possibilidade de uma maior democratização do sistema político do país.

A esquerda e os movimentos populares e sociais devem assumir com vigor e ativo protagonismo a luta por uma reforma política ampla, que favoreça a participação dos pobres na vida política.

Os conservadores e a direita radical nunca foram tão fortes desde que Menahem Begin conseguiu em 1977 a primeira vitória do Likud. Os deputados conquistados pelos partidos da direita e a ultra-direita, os que representam o voto dos colonos, e dos ultra-ortodoxos chegaram ao seu nível mais alto, beirando os 65. Antes eram 53. O Kadima de Tsipi Livni venceu as eleições, mas apenas pela margem mínima de um deputado. Resultado: tanto ela quanto Benjamin Netanyahu, do Likud, que ficou em segundo lugar, cantaram vitória.

O Kadima de Tsipi Livni venceu as eleições israelenses, mas apenas pela margem mínima de um deputado. Resultado: tanto ela quanto Benjamin Netanyahu, do Likud, que ficou em segundo lugar, cantaram vitória. Ambos já se lançaram na corrida para tentar garantir uma coligação maioritária. O fiel da balança é o partido ultra-direitista Israel Beiteinou, de Avigdor Lieberman.

Faltando apenas contar os votos dos israelenses no exterior, o Kadima obteve 28 lugares no Parlamento de Israel, perdendo um deputado. O Likud, de Benjamin Netanyahu foi o partido que mais avançou, passando de 19 para os 27 lugares. No terceiro posto ficou o Israel Beiteinou, que subiu de 11 para 15 deputados, relegando para o quarto posto o Partido Trabalhista do ministro da Defesa, Ehud Barak, que elegeu 13 deputados, perdendo seis.

O ultra-ortodoxo Shas perdeu um deputado, elegendo 11. Tzipi Livni declarou-se vitoriosa e exigiu o respeito pela vontade popular. "O povo escolheu o Kadima", proclamou Livni, defendendo que "agora é necessário respeitar a escolha dos eleitores, respeitar a decisão das urnas, e formar um governo de União Nacional sobre a nossa direcção".

Mas, a menos que consiga chegar a um acordo com o Likud ou com Lieberman, as hipóteses de Livni conseguir o apoio de 61 deputados parecem inexistentes. Consciente de que está melhor colocado na corrida para formar governo, Benjamin Netanyahu fez igualmente um discurso de vitória, apesar de ter ficado em 2º lugar. "O povo exprimiu-se claramente, o campo nacional, dirigido pelo Likud, regista um claro avanço", afirmou.

Já Avigdor Lieberman deixou em aberto as suas opções, mostrando-se disposto a negociar com Livni e com Netanyahu, apesar de reconhecer que pende para o lado do Likud: "Nós sempre quisemos um governo nacional, um governo de direita e espero que o consigamos", disse. Lieberman defende que o próximo governo israelense tem de "derrotar o Hamas" e rejeitar qualquer negociação de tréguas.

Os conservadores e a direita radical nunca foram tão fortes desde que Menahem Begin conseguiu em 1977 a primeira vitória do Likud. Os deputados conquistados pelos partidos da direita e a ultra-direita, os que representam o voto dos colonos, e dos ultra-ortodoxos chegaram ao seu nível mais alto, beirando os 65. Antes eram 53.

O afundamento do Partido Trabalhista, o fundador do Estado de Israel, com apenas 13 deputados, adquire dimensão histórica, comenta o diário espanhol El País. Logo depois da publicação dos resultados oficiais, dentro de uma semana, o presidente Shimon Peres deverá ouvir todos os partidos e decidir se nomeará a líder do maior partido, Tzipi Livni, ou o líder do maior bloco, Benjamin Netanyahu, para formar o novo governo. Quem quer que seja nomeado disporá de seis semanas para concluir a tarefa.

Fonte: Agência Carta Maior

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

No zoológico humano de Guido Viaro

Acabo de receber o novo livro do escritor curitibano Guido Viaro, lançado no final do ano passado, no Zoológico de Berlim. Trata-se de uma obra de ficção, com base em fatos reais e até mesmo chocantes. Guido fez um intenso trabalho de pesquisa e desvendou uma atividade bastante curiosa e reveladora da mente mórbida dos colonizadores europeus.

No final do século dezenove e começo do vinte, vários zoológicos europeus mantinham seres humanos aprisionados para exibição, como se fossem animais. Essas pessoas eram capturadas na Àfrica, na América do Sul, no Pólo norte e na Ásia, e contra suas vontades, trazidas para a Europa para serem expostas à curiosidade do público. Muitos morriam na viagem, outros durante o cativeiro, alguns poucos sobreviviam até ganhar a liberdade.

A partir dessa condição o escritor construiu a sua obra, narrando a vida do seu personagem e sua luta pela liberdade e para manter a sanidade, ameaçada pela situação imposta por seus captores. Vale a pena a leitura.

Guido também é autor dos romances "o Quarto do Universo", "Glória", "Mulher que Cai", A Praça do Diabo Divino" e "Embaixo das Velhas Estrelas". Mais informações acesse:
www.guidoviaro. com.br.

O blog, este espaço nem sempre regular, no ano passado (2008) ficou meses sem postagens, mas agora em 2009 vamos manter a página na internet com regularidade e para isso estamos efetuando algumas mudanças. A Tática Comunicaçâo Integrada pilota as mudanças. Visual mais clean, para facilitar a leitura e novo padrão estético. Acho que tá ficando bom...

Afirmou Chávez no ato comemorativo pelo 10º aniversário da Revolução Bolivariana. Realizaram a 4ª Cúpula da ALBA

Caracas — “Hoje não completamos apenas dez anos da Revolução, completam-se dez anos do início de uma nova época na América Latina, do início de um novo dia”, disse o presidente Hugo Chávez perante uma multidão que ficou no lugar, sob a chuva, comemorando uma década de Revolução Bolivariana.

“Um novo mapa político, econômico e geopolítico há na região”, salientou o presidente, que esteve acompanhado do primeiro vice-presidente cubano, José Ramón Machado Ventura; do primeiro-ministro da Dominica, Roosevelt Skerrit; e dos presidentes da Bolívia, Evo Morales; de Honduras, Manuel Zelaya; e do Equador, Rafael Correa.

O povo deu-lhes as boas-vindas, após o encerramento da 4ª Cúpula Extraordinária da Alternativa para os Povos da Nossa América (ALBA), realizada aqui.
Durante a Cúpula, que teve lugar no Palácio de Miraflores, Chávez agradeceu o apoio dado pela
Revolução Cubana ao processo de mudanças, iniciado na Venezuela em 1999.
“Não podemos calcular até onde chega o horizonte e a magnitude do apoio da Revolução Cubana à Revolução Bolivariana”, afirmou o dignitário.

Segundo a PL, referindo-se aos dez anos do processo de transformação na Venezuela, assinalou que essa década se pode “resumir em três palavras que reúnem o imenso esforço do povo em todos estes anos: revolução, independência e socialismo”.

Evo Morales assinalou que a ALBA permitiu em seu país atingir importantes avanços em matéria de saúde e educação e destacou a contribuição decisiva de Cuba e da Venezuela para a erradicação do analfabetismo e para o atendimento a mais de 300 mil bolivianos mediante a

Operação Milagre

Daniel Ortega assegurou que a integração e a unidade são o único caminho diante da crise mundial. Também se pronunciaram nesse sentido o primeiro-ministro da Dominica, Roosevelt Skerrit, e o presidente hondurenho, Manuel Zelaya.

Os presidentes presentes assinaram dois acordos em matéria de segurança e soberania alimentícia, inclusive, a constituição de uma empresa grã-nacional para a produção de alimentos, que será financiada pelo Banco da ALBA. (SE)

Prensa Latina

Reproduzo artigo do Semanário Avante do Partido Comunista Português, que descreve a onda crescente de desemprego no mundo, resultado da crise sistêmica do capitalismo. Os dados são da última semana.

Na última semana foram extintos mais de 90 000 postos de trabalho no mundo. O rol não é exaustivo e não inclui a ameaça de despedimento de 60 000 trabalhadores só no grupo Fiat. Os números publicados nesta edição já estarão desatualizados quando o jornal chegar às bancas. Os despedimentos sucedem-se a um ritmo avassalador, deixando claro a quem é que o capital apresenta a fatura da crise que assola o sistema. Na generalidade dos casos, as empresas apresentam como prejuízo a perda de lucros, mas continuam a embolsar milhões.

Um «prejuízo» em nada comparável ao sofrido por milhões de pessoas cujo único capital é a sua força de trabalho. Veja-se o levantamento possível e tire-se as conclusões.O grupo holandês ING – banca e seguros – anunciou esta segunda-feira a supressão de 7000 postos de trabalho em todo o mundo, alegando um prejuízo de mil milhões de euros no exercício de 2008. O grupo, que em outubro recebeu do governo uma injecção de capital de 10 000 milhões de euros e vai receber nova ajuda – o aval do Estado holandês a 80 por cento das hipotecas problemáticas que o ING detém nos Estados Unidos da América –, espera conseguir com a liquidação de empregos agora anunciada uma economia de mil milhões de euros em 2009 e uma redução estrutural dos custos de cerca de 1,1 mil milhões de euros a partir de 2010. Também a Philips, gigante electrônica holandesa, vai eliminar 6000 empregos, após ter registado um prejuízo de 1,5 milhões de euros no quarto trimestre de 2008.

Em termos globais, as perdas do ano transato ascendem a 186 mil milhões de euros, o primeiro prejuízo registado desde 2003, segundo a Lusa. Em Portugal, a única fábrica da Philips ainda a laborar, em Ovar, encerra até ao final de 2009, deixando no desemprego cerca de 70 trabalhadores. Ainda no sector electrônico, a japonesa Sony estima uma perda de mais de dois mil milhões de euros no fim do exercício de 2008-2009, enquanto a sul-coreana Samsung anunciou a semana passada o seu primeiro prejuízo trimestral: uma perda de 12,16 milhões de euros entre outubro e dezembro. A japonesa NEC Tokin anunciou a supressão de 9450 postos de trabalho, 450 dos quais no Japão.

Na área das telecomunicações, a norte-americana Sprint Nextel propõe-se liquidar 8000 empregos, para além de já ter suspenso os aumentos salariais. A farmacêutica Pfizer vai igualmente despedir um elevado número de trabalhadores: 19 000, o que corresponde a cerca de 15% dos seus funcionários, e encerrar cinco fábricas. Ainda nos EUA, a Home Depot (produtos para o lar) faz face à crise despedindo 7000 trabalhadores, enquanto a Texas Instruments (componentes electrônicos) vai dispensar 3000 funcionários, o equivalente a 12% dos efectivos da empresa. A fabricante de chips alega per perdido 86% do seus lucros líquidos no quarto trimestre de 2008. Quanto ao grupo informático IBM, que há uma semana anunciou lucros líquidos melhores do que os esperados em 2008, estará a preparar a extinção de 1419 empregos no departamento de software e de 1449 nas áreas de distribuição e venda, segundo anunciou o sindicato Aliance-IBM.

Despedir em nome da crise também a multinacional norte-americana Microsoft anunciou a supressão de 5000 empregos em 18 meses, dos quais 1400 de imediato, para poupar cerca de 1,5 mil milhões de dólares. O anúncio foi feito a 20 de Janeiro, no mesmo dia em que a Microsoft revelou a queda de 11% nos seus lucros no último trimestre de 2008, o que significa que «apenas» arrecadou 4,17 mil milhões de dólares.

No setor automóvel, a maior ameaça de despedimentos em massa vem da construtora italiana Fiat, que ameaça lançar 60 000 pessoas no desemprego se não obtiver apoios do governo. Entretanto, a alemã BMW decidiu colocar 26 000 trabalhadores em regime de trabalho parcial, a partir de Fevereiro, e até princípios de Março. A principal unidade de produção afectada será Dingolfing, que tem 15 mil trabalhadores. As outras serão Regensburgo (oito mil trabalhadores), Landshut (2700) e Berlim (190). A General Motors, por seu turno, já anunciou que vai reduzir os turnos em duas fábricas nos EUA, eliminando 2000 postos de trabalho, para além de ir restringir a produção em mais 13 fábricas nos EUA e no Canadá.

No setor do aço a situação é idêntica: a empresa Corus, a segunda maior fabricante de aço da Europa, anunciou a eliminação de 3500 postos de trabalho, a maioria dos quais (2500) no Reino Unido, segundo a BBC. A Corus emprega actualmente 42 000 em vários países, sendo que 24 000 destes postos de trabalho se situam no Reino Unido.

Igualmente no Reino Unido, o Royal Bank of Scotland prepara-se para eliminar pelo menos 750 empregos na unidade irlandesa Ulster Bank. Já a Caterpillar, líder no setor de veículos e maquinaria pesada nos EUA, anunciou a intenção de suprimir 20 000 empregos em todo o mundo, justificando a medida com a quebra de 32% nos lucros do quarto trimestre de 2008: os resultados líquidos foram 661 milhões de dólares, menos 314 milhões do que em 2007.

Também o maior banco de França (BNP Paribas) espera ter «apenas» três mil milhões de lucros, cerca de metade dos resultados alcançados em 2007, pelo que decidiu despedir 800 trabalhadores. Quanto à Société Générale, outra importante instituição da banca francesa, limitou os seus lucros para o exercício de 2008 a cerca de dois mil milhões de euros, menos sete mil milhões de euros do previsto.

por Altamiro Borges*

Empossado em 2 de fevereiro de 1999, o presidente Hugo Chávez completa 10 anos a frente da "revolução bolivariana" na Venezuela. Sua inesperada eleição, em dezembro de 1999, com 56% dos votos, foi uma resposta à devastação neoliberal e representou duro golpe ao bipartidarismo oligárquico imperante neste país desde 1958 – através do pacto de "Punto Fijo". Ela deu início a uma experiência inédita na América Latina, com a vitória de inúmeros governantes progressistas, antineoliberais, e recolocou na agenda política o debate sobre o "socialismo do século 21".

Nesta década, Hugo Chávez, que chegou ao governo sem contar com partidos estruturados e movimentos sociais consistentes, enfrentou enormes obstáculos. Além dos problemas estruturais de um país miserável, ele foi alvo da fúria das elites racistas, das conspirações do imperialismo e do cerco da mídia. Com base no apoio popular e num núcleo nacionalista das forças armadas, ele derrotou o golpe de Estado de abril de 2002, o locaute petroleiro de dezembro/janeiro de 2003 e incontáveis iniciativas de desestabilização do seu governo. Segundo pesquisa recente, atuam no país 271 organizações não-governamentais financiadas pelos EUA e com propósitos golpistas.

"A palha e o furacão revolucionário"

Num processo radicalizado, ele insistiu na via democrática, ao contrário do que alardeia a mídia. Hugo Chávez enfrentou e venceu três eleições presidenciais (1998, 2000 e 2006), três referendos constitucionais (dois em 1999 e outro em 2004), quatro pleitos executivos (2000, 2004, 2005 e 2008) e dois legislativos (1999 e 2005). Na mais recente disputa, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) conquistou 17 dos 23 governos estaduais e 233 prefeituras (80% das existentes). Nesta trajetória, ele sofreu apenas uma derrota, no referendo de dezembro de 2007.

A cada nova vitória, Chávez foi firmando sua convicção no projeto bolivariano. "Eu sou apenas uma débil palha arrastada pelo furacão revolucionário", explica. Após derrotar o golpe de 2002, ele exonerou os generais golpistas e acelerou os programas sociais. Com a derrota do locaute, ele demitiu a casta de diretores e gerentes endinheirados e assumiu, de fato, o comando da poderosa empresa de petróleo da Venezuela – a PDVSA. Ele também enfrentou a ditadura midiática, não renovando a concessão pública da RCTV e incentivando rádios e TVs comunitárias. A partir da eleição presidencial de 2006, Chávez anunciou sua idéia híbrida do "socialismo do século 21".

Mudanças políticas radicais

Vários fatores explicam os avanços da revolução bolivariana, com seus ziguezagues e lacunas. A primeira é a radical mudança política no país, com o governo apostando na participação ativa das camadas populares – na chamada democracia protagônica. Através dos comitês bolivarianos, das misiones (programas sociais sob controle da sociedade) e dos conselhos há um enorme esforço pedagógico para envolver os "excluídos". Na retaguarda deste processo movimentista aparecem as Forças Armadas. "Nossa revolução é pacífica, mas não é desarmada", enfatiza sempre Chávez.

O debate político na Venezuela é dos mais intensos e democráticos. As sucessivas eleições e as várias instâncias de participação popular procuram superar a fragilidade dos movimentos sociais e a debilidade de um processo centrado num único líder. Nesta empreitada se dá a guerra contra a ditadura midiática. Balanço recente indica que, além dos quatro veículos estatais, hoje já existem 250 rádios comunitárias, 24 emissoras de TV sob controle popular, 300 periódicos alternativos e uma potente rede de internet – de 640 mil usuários em 2002 pulou para 4,142 milhões em 2008.

Avanços no campo econômico

Outro fator determinante para os avanços da revolução bolivariana são as mudanças no terreno econômico. Inicialmente, o processo foi até conservador, cauteloso. Com o tempo, as mudanças ganharam ritmo – com a estatização, de fato, da PDVSA, introdução de tributos sobre ganhos das multinacionais e medidas de controle do fluxo de capitais, entre outras de cunho antineoliberal. Procura-se diversificar a base produtiva do país, que continua muito dependente do petróleo, no que se batizou de econômica endógena. Há também o estímulo às cooperativas e às propriedades sociais. Com base nestas medidas, a economia cresceu em média 11,2% nos últimos cinco anos.

Na fase recente, a revolução bolivariana acelerou o processo de estatização de áreas estratégicas, comprando empresas privadas na telefonia (Cantv), energia (AES), siderurgia (Sidor) e bancos (Santander). A proposta do "socialismo do século 21" ainda é uma peça de propaganda. Diante da grave crise mundial do capitalismo, que afeta duramente o preço e o volume das exportações de petróleo, o governo tenta atrair o chamado setor produtivo. Em julho passado, promoveu um encontro com 300 empresários e lançou um forte programa de subsídios às empresas. Há muita polêmica sobre o lançamento de uma nova NEP (Nova Política Econômica) a exemplo do ocorrido na revolução soviética.

A força dos programas sociais

O que dá forte impulso à revolução bolivariana, porém, são os programas sociais implantados nestes 10 anos. Três reportagens recentes – "Uma década de Chávez", da revista Carta Capital; "Chávez, as dez vitórias e a mídia", do jornal mexicano La Jornada; e "A nova Venezuela do presidente Chávez", do periódico francês Le Monde Diplomatique – evidenciam o esforço do governo para melhorar a vida da sua população. A oligarquia racista, a imperialismo e a mídia venal até hoje não entenderam estas mudança. Vale à pena listar alguns dados do período 98-07:

- Miséria extrema: baixou de 20,3% para 9,4%;

- Pobreza: de 50,4% para 33,07%;

- Diferença entre riqueza/pobreza: de 28,1% para 18%;

- Mortalidade infantil: de 21,4 para 13,9 de cada mil nascidos vivos;

- Desemprego; de 16,06% para 6,3%;

- Salário mínimo: de 154 dólares para 286 dólares, o mais alto da América Latina;

- Aumento do poder aquisitivo: 400%;

- Investimento na educação: de 3,38% para 5,43% do PIB;

- Educação básica: de 89,7% para 99,5% das crianças;

- Educação superior: de 21,8% para 30,2% dos estudantes;

- Investimento em saúde: de 1,36% para 2,25% do PIB.

*Altamiro Borges é jornalista e membro do Comitê Central do PC do B
Fonte: Blog do Altamiro Borges

Na esteira da crise sistêmica do capitalismo, as grandes corporações -. tanto nacionais como estrangeiras - na busca de manter as atuais margens de lucros, sem admitir qualquer recuo, descarregam brutalmente sobre os trabalhadores, com a ameaça do desemprego e da redução de direitos, o ônus da crise. Ou seja, é sobre a massa assalariada, mais uma vez, que o capital quer
lançar as suas âncoras para sair do naufrágio

Nesta semana o FMI divulgou suas pessimistas projeções para a economia mundial. O quadro é grave: Recessão para os países desenvolvidos e em desenvolvimento, afetando sobremaneira a vida das populações mais pobres do mundo. Desemprego em escala crescente, com a projeção de mais de 50 milhões de desempregados até o final de 2009. Além disso, o FMI faz uma projeção para o desempenho da economia global em 2009, num patamar de minguados 0,5%. Portanto, um quadro de grave retração da economia.

É neste cenário que ocorre uma verdadeira e brutal ofensiva do capital contra os direitos dos trabalhadores. Sob a ameaça do tacão do desemprego, as corporações e o patronato “oferecem” para os trabalhadores a opção da redução do salário em troca da manutenção do emprego. Uma vil chantagem. Isso é como falar de corda em casa de enforcado. Mais ainda: Há setores do empresariado nativo que defendem neste momento de regressão da economia uma reforma trabalhista, para segundo eles, eliminar os “excessos de direitos” presentes na atual legislação trabalhista do país.

Para enfrentar essa armadilha o movimento organizado dos trabalhadores - as centrais sindicais e os sindicatos - precisam radicalizar a mobilização em defesa da bandeira da redução da jornada de trabalho sem a redução dos salários; pressionar os governos para que adotem medidas mais vigorosas no enfrentamento da crise, ações que defendam e protejam o emprego e a renda dos mais pobres; e exigir das corporações e capitalistas beneficiários de subsídios governamentais contrapartidas efetivas para a manutenção do emprego dos trabalhadores; e a adoção de medidas de controle sobre o sistema financeiro - e sua legião de banqueiros e executivos especuladores.

A crise é profunda e extensa, atinge tanto o centro como a periferia do sistema. Repercute no Brasil ceifando fortemente o emprego do trabalhador. Grandes empresas, como a Vale do Rio Doce, já defendem abertamente a nefasta formula da redução do salário para manter o emprego. No setor automobilístico, mesmo com a ajuda do governo, as empresas realizam planos de demissão.

Os trabalhadores não foram os causadores da crise. Quem especulou, quem investiu em papéis podres nas Bolsas e alimentou o cassino global da economia capitalista que pague pela saída da crise.

O desafio que fica para os trabalhadores e suas organizações é o da luta para deter mais essa onda de aviltamento dos direitos e de desvalorização do trabalho.

Em Tempo: na conclusão deste artigo acabo de receber informações dos companheiros da Bosch, unidade de Curitiba, que a direção da empresa pressiona os trabalhadores para aceitarem um acordo de redução da jornada com a redução do salário para não haver demissões.

*Artigo publicado também no Portal Vermelho

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Conseqüencias econômicas da bufunfa

Por Paulo Nogueira Batista Jr*

O tsunami dos bufunfeiros atingiu primeiro os sistemas financeiros nos Estados Unidos e na Europa. Numa segunda etapa, desde meados de 2008, a crise começou a afetar mais fortemente a atividade econômica nos países desenvolvidos. Na terceira etapa, a partir de setembro/ outubro, a crise se propagou para a periferia da economia internacional. A região mais atingida é a periferia européia (Islândia, Hungria, Ucrânia, Letônia, Belarus, Turquia, entre vários outros países), mas todos os continentes estão acusando o golpe nos meses recentes.

Ontem, o FMI divulgou suas novas projeções para a economia mundial. O quadro é desastroso. Para todos ou quase todos os países importantes, desenvolvidos e emergentes, as projeções de crescimento para 2009 foram drasticamente reduzidas. Desde as últimas estimativas, divulgadas em novembro, a projeção para o crescimento global caiu de 2,2% para apenas 0,5%. A revisão foi de 1,7 ponto percentual em menos de três meses! Segundo o FMI, a recuperação, provavelmente lenta, só virá em 2010.

Haverá recessão em todos os principais países desenvolvidos, sem exceção. Para o conjunto das economias avançadas, a contração esperada chega a 2% em 2009 -a primeira queda anual desde a Segunda Guerra Mundial. As expectativas para as economias emergentes e em desenvolvimento, inclusive o Brasil, também sofreram um baque. No caso desses países, as projeções ainda apontam para crescimento em 2009, mas a taxa de expansão do PIB cairia quase pela metade, segundo o Fundo, passando de 6,3% em 2008 para 3,3% em 2009. Em alguns emergentes importantes, haveria queda do produto (Rússia, México e Coréia do Sul, por exemplo).

O Brasil ainda teria algum crescimento econômico em 2009, porém a taxa ficaria em apenas 1,8%, segundo o FMI, número um pouco inferior às projeções feitas por analistas privados no Brasil. Para 2010, o Fundo projeta crescimento de 3,5% para a economia brasileira.
Note-se que essas projeções do FMI embutem a hipótese de que os governos dos principais países adotarão políticas fortemente expansivas, particularmente no campo fiscal. O Fundo calcula, por exemplo, que o déficit público nas economias avançadas alcance nada menos que 7% em 2009! Isso refletiria medidas de aumento de gastos, cortes de impostos, o efeito da recessão sobre as contas governamentais e, por último mas não menos significativo, os imensos pacotes montados para resgatar a turma da bufunfa.

O resultado será um enorme aumento da dívida pública dos países desenvolvidos. E o pior é que nem isso evitará a recessão ou garantirá uma recuperação em 2010 e nos anos seguintes. Os países desenvolvidos e o resto do mundo irão pagar preço muito elevado pela desenfreada especulação financeira dos últimos anos. Como diria Nelson Rodrigues, os bufunfeiros serão caçados a pauladas, feito ratazanas prenhes.

* Paulo Nogueira Batista Jr é economista e diretor-executivo do FMI
Artigo publicado na Folha de São Paulo em 29-1-09

Jefferson Tramontini*

Como acontece de tempos em tempos, vivemos mais uma crise do capitalismo. No entanto, diferente das diversas crises acontecidas durante os anos 1990, auge do neoliberalismo, que varreram diversas das economias periféricas, a crise atual originou-se no centro do sistema, destacadamente na maior potência imperialista, os Estados Unidos da América, e é justamente provocada pela quase plena desregulamentação e financeirização do capital.

A liberalização, que descolou o capital financeiro da produção real ao longo dos últimos 30 anos chegou a um estágio insuportável. Os chamados derivativos, o capital fictício que circula pelo mundo, soma mais de 10 vezes o valor da economia real. Cedo ou tarde a bomba relógio estouraria.

O estopim foi a inadimplência nos financiamentos de segunda linha (subprime) no mercado imobiliário dos EUA. A falta de pagamento na ponta, provocada por estagnação da renda e juros elevados, fez com que toda a pirâmide desmoronasse. Os bancos, fortemente alavancados, passaram a uma falta de liquidez, impedindo o pagamento aos fundos de investimentos e assim sucessivamente. Como toda a cadeia é artificial, não havendo de fato nem o dinheiro nem as garantias, as instituições financeiras passaram a ter dificuldades de liquidez e o efeito imediato foi a escassez de crédito em todas as áreas, afetando a produção real e os empregos.

Como os ditos investimentos circulam facilmente o planeta, especialmente EUA e União Européia, rapidamente a crise se espalhou pelo mundo. Afetando as economias centrais, também a periferia, dependente, foi afetada.

Apesar do marco de início dessa crise ter se dado no mercado imobiliário dos EUA, ela realmente começou antes. A escalada dos preços das commodities, como petróleo e grãos, no período de 2007 e 2008 foi parte desse processo. A fuga dos capitais especulativos para investimentos mais seguros, especialmente nos mercados futuros, triplicaram o preço do barril de petróleo e elevaram em grande escala os preços dos alimentos, remunerando muito bem os especuladores, mas espalhando a fome a milhões em todo o globo.

A saída para a crise de liquidez foi, sem novidades, recorrer ao erário público. Dinheiro público, dos impostos pagos pelas populações dos diversos países, em especial trabalhadores, desviados para o caixa de grandes corporações que apostaram no cassino do mercado financeiro desregulamentado e perderam. Mais de 5 trilhões de dólares já foram injetados pelos vários governos no mercado e a crise internacional ainda não foi debelada.

Na atual fase dessa que é tida como a maior crise capitalista desde a grande depressão de 1929, os proprietários do capital, real e fictício, procuram alguém para pagar a conta da crise que eles mesmos provocaram. Como nas crises anteriores, o alvo preferencial são os trabalhadores.

Apenas nos EUA, desde dezembro de 2007, mais de 2,5 milhões de empregos foram pulverizados. Em apenas um dia, em 26 de janeiro de 2009, grandes corporações da Europa, EUA e Japão cortaram mais de 79 mil empregos. Uma dessas mega-empresas, o laboratório farmacêutico Pfizer, demitiu mais de 8 mil trabalhadores no mesmo dia em que se tornou a maior empresa do mundo no setor ao adquirir a Wyeth por 68 bilhões de dólares.

No Brasil, em que pese as melhores condições que o país possui para enfrentar as dificuldades, a crise também já afeta gravemente os empregos. A estimativa do Ministério do Trabalho é de que 650 mil empregos formais tenham sido perdidos até agora.

No entanto, diferente dos países centrais, o Brasil, mesmo sofrendo os efeitos da crise, continua crescendo sua economia. Mesmo assim diversas empresas têm recebido dinheiro público para manter suas contas equilibradas e, mesmo assim, têm aumentado as demissões em escala.

Os proprietários das grandes corporações em todo o mundo, e no Brasil isso tem ficado muito claro, tentam jogar a conta da crise nas costas dos trabalhadores. As transnacionais aumentam as remessas de lucro para suas matrizes, facilitadas pela vista grossa dos órgãos que deveriam fiscalizá-las, em especial o Banco Central. O lobby patronal pela flexibilização dos direitos trabalhistas também é intenso e conta com o decidido apoio das corporações midiáticas.

Propostas indecentes como redução de salários, o aumento do prazo de suspensão dos contratos de trabalho, entre outras, têm sido apresentadas pelos ricos grandes empresários como a única saída para a crise, a única forma de evitar a bancarrota nacional. Falam em sacrifícios, mas não abrem mão de seus gordos dividendos nem das altíssimas remunerações de seus executivos.

Empresas anunciam demissões alegando dificuldades financeiras e ao mesmo tempo suas ações sobem nas roletas das bolsas de valores. Os patrões tentam aproveitar a crise para aumentar a taxa de exploração sobre os trabalhadores.

O governo Lula, eleito pela força dos trabalhadores brasileiros, tem tomado medidas para estimular a economia nacional, mas essas ainda se mostram insuficientes, inclusive pela não exigência de contrapartidas das empresas, especialmente no tocante à manutenção dos empregos.

A economia brasileira tem crescido nos últimos anos devido ao aumento do investimento público, ao fortalecimento do mercado interno, aos aumentos dos salários e, principalmente, pelo aumento do número de empregos. A solução para a crise, destacadamente nos países periféricos como o Brasil, nem de longe passa pelas demissões. Ao contrário, o aumento dos empregos e da massa salarial, permitindo o consumo de milhões de famílias de trabalhadores é a real possibilidade de crescimento e proteção da economia brasileira dos efeitos da crise internacional.

Nessa conjuntura, a unidade do movimento sindical se faz urgente. Alguns passos já foram dados nesse sentido, como as paralisações de empresas que demitem e as manifestações unitárias pela redução das taxas de juros, que forçaram o Banco Central a reduzir a Selic em 1pp.

Porém, muito ainda há de se fazer para que os trabalhadores possam superar a crise e derrotar a sede de lucro dos patrões. Para isso é necessário superar os exclusivismos, abandonar vaidades e adesismos, avançando unificadamente para lutas mais vigorosas e de massa.

Os trabalhadores devem jogar o peso da crise sobre as costas dos verdadeiros responsáveis por ela.

*Jefferson Tramontini é secretário sindical do PCdoB/PR, secretário de comunicação da CTB-PR
Artigo reproduzido do blog classista de J. Tramontini